Decifrando as IPAs

Se existe algum estilo que possa ser considerado ícone da revolução da cerveja artesanal é sem dúvida o India Pale Ale, ou simplesmente IPA. Não há quem não tenha se acostumado à pronunciar essas três letrinhas. Após ter sido reinventado nos Estados Unidos nas décadas de 80 e 90, ganhou o mundo e tornou-se o estilo mais popular entre os amantes da cerveja de verdade. Ganhou seu dia, festas próprias e até um apelido para seus fiéis seguidores: hopheads, os cabeças de lúpulo. Talvez não seja um estilo para todos, especialmente em suas versões mais elaboradas. O amargor intenso às vezes assusta os incautos. Mas uma coisa é certa: aquele amargor que persiste no palato e que carrega a força aromática dos lúpulos é completamente viciante. Eu confesso: sou hophead!

Lenda ou História?

Todo mundo conhece aquela estória clássica de que o estilo foi criado na Inglaterra para possibilitar o envio de cerveja às tropas britânicas na India. Daí o nome India Pale Ale. Apesar de bonitinha, essa história não passa de uma lenda repetida por neófitos cervejeiros. É só lembrar que à época as cervejas mais populares eram as Porters, muito mais resistentes à esse viagem que as próprias IPAs. Lenda ou história o fato é que o estilo surgiu na Inglaterra por volta do século XVIII e foi bastante popular no Reino Unido até a primeira grande guerra. Foi quando o governo britânico declarou guerra às ales taxando pesadamente seus ingredientes. A ideia era, além de arrecadar, governos sempre querem arrecadar, incentivar o consumo de pale lagers, mais baratas e menos alcóolicas. E por quase 60 anos a maldição das Pale Lagers reinou soberana no Reino Unido. Até que, no final da década de 70, um grupo de consumidores revoltados com o desaparecimento dos verdadeiros estilos britânicos criou um movimento que ia mudar tudo novamente, o CAMRA (Campaign for Real Ale). Em pouco tempo esse movimento estimulou com sucesso o resgate das receitas históricas e da cultura dos legítimos pubs britânicos. Assim como diversos outros estilos, o India Pale Ale estava de volta.

Reinvenção e Estrelato

Mas o grande salto veio pelas mãos de cervejeiros americanos nas décadas de 80 e 90.  Verdadeiros revolucionários, reinventaram o estilo. E essa reinvenção tem nome: lúpulo.  Diferentemente das comportadas variedades européias, os lúpulos americanos são mais agressivos tanto na potência aromática como no amargor. E proporcionaram as sensações cítricas e resinosas que aliadas a um amargor mais assertivo, catapultaram o estilo para o estrelato sob o nome de “American IPA”. Mas a criatividade e a ousadia dos cervejeiros americanos não se limitou aos lúpulos.  Na sequência vieram as Imperial IPAs,  as Black IPAs, as Belgian IPAs, as Brett IPAs … em uma revolução sem fim.
Para facilitar o entendimento dessa diferentes IPAs vejamos o que esperar de cada uma delas.

=> English IPA

– é o estilo histórico inglês que deu início à essa saga. O que devemos perceber aqui é essencialmente o equilíbrio. Lúpulos, via de regra florais, combinados à uma boa carga de malte, caramelo leve. O final é amargo e seco porém sem nenhum exagero. Apresenta em segundo plano aquela mineralidade típica britânica.
Clássica: Fuller’s India Pale Ale

=> East Coast American IPA

– originárias da Costa Leste dos Estados Unidos, poderíamos dizer que é uma IPA intermediária entre as English e as West Coast. Mantém a mesma sólida base maltada (caramelo) mas agora com a utilização de lúpulos americanos e ingleses combinados. Os lúpulos americanos trazem notas cítricas e resinosas e os ingleses notas florais. O amargor é mais assertivo e intenso e o final tende a ser seco. Apesar de bem lupuladas, o malte faz-se presente buscando sempre o equilíbrio.

Clássica: Dogfish Head 60 Minute IPA

=> West Coast American IPA

–  típicas da costa oeste americana, região das lavouras de lúpulo daquele país, têm predominância absoluta da sensações provenientes dos lúpulos sendo o malte apenas um coadjuvante. Extremamente aromáticas comnotas cítricas, de frutas tropicais e/ou resinosas. O malte faz apenas um pano de fundo geralmente com notas de mel. São sempre bastante amargas e secas. Favoritas de hop heads como eu.

Clássica: Anderson Valley Hop’Ottin IPA

=> Session American IPA

– o sufixo session indica aquelas cervejas que primam pela drinkability, sendo leves e indicadas para serem degustadas em ocasiões informais e em grandes quantidades. No caso das Session American IPAs elas quase se aproximam das American Pale Ales, apenas um com uma intensidade de lúpulo maior. Me arrisco a dizer que é como se fosse uma West Coast suavizada.
Clássica: Founders All Day IPA

=> Imperial ou Double IPA

– o sufixo imperial significa sempre intensidade redobrada. No caso, muito, mas muito, lúpulo o que leva a sensações aromáticas e picantes. O malte também é intensificado, trazendo caramelo e fazendo com que o nível de álcool por volume suba. O final é sempre intensamente amargo, seco e até com alguma adstringência. Nas Imperial IPAs a distinção de west coast e east coast é menos perceptível, mas existem cervejas com perfil mais e menos maltado.

Clássica: Rogue XS Imperial IPA

=> Belgian IPA

– encontro de duas escolas, a belga e a americana, é hoje popular em ambos os países. Talvez até mais na Bélgica.  Pode-se chegar à uma Belgian IPA de duas maneiras: sobre uma receita de american IPA utilizar leveduras belgas (de blond, saison ou tripel); ou sobre a receita de belgian ale (blond, saison ou tripel), utilizar lúpulos americanos. As Belgian IPAs combinam a força aromática dos lúpulos americanos com os ésteres frutados e a picardia das leveduras belgas. Intensas, amargas e picantes.

Clássica Americana: Flying Dog Raging Bitch
Clássica Belga: Houblon Chouffe Dobbelen IPA Tripel

=> White IPA

– uma variação da anterior. É chamada de White IPA porque utiliza levedura de Witbier. É uma american IPA bem clara e leve, geralmente bastante cítrica e com presença leve de condimentos como semente de coentro e pimenta branca. É quase uma session belgian IPA.
Clássica: Deschutes: Chain Breaker White IPA

=> Black IPA

– nova interpretação para o estilo, onde a mudança está no malte. São utilizados maltes tostados que conferem a cor negra. Carrega a potência aromática de uma american IPA mas com algumas notas leves de torrefação como chocolate, café e/ou frutas escuras. O final permanece amargo e seco mas o aftertaste traz as notas da torrefação discretamente presentes. Como é o malte que dá a cor à cerveja já existem variações como as Red IPAs.
Clássica: Brewdog Libertine Black Ale

=> Brett IPA

– novo choque entre escolas. Sobre uma American IPA são utilizadas leveduras selvagens, as famosas Brettanomyces, responsáveis pela produção das Lambics belgas. Pode-se utilizar 100% leveduras selvagens ou em menores proporções. Combinam o perfil aromático dos lúpulos americanos com as notas selvagens da fermentação lática como uva verde, notas avinagradas e manta de cavalo. Amargas e levemente azedas, personificam, na minha opinião, a refrescância.

Clássica: Evil Twin Femme Fatale Brett
Bom, acho que deu sede. Que tal uma degustação combinada de todas essas IPAs? Paraíso!

Recommended Posts

Leave a Comment