Grandes Escolas Cervejeiras

Grandes Escolas Cervejeiras
Por mais que arqueólogos encontrem bebidas fermentadas em diversas culturas pelo mundo todo, que os primeiros traços da bebida estejam ligados aos sumérios pelos idos de 3.900 AC (alguns até falam em civilizações pré-chinesas datadas de 6.000 AC),  que o nome venha da palavra “Cervizia” adotado pelos romanos do idioma celta no auge do seu império (100 AC) … foi mesmo na Europa, na transição entre a idade antiga e a idade média, que a cerveja começou a tomar a forma que conhecemos hoje.  Portanto, a cerveja é sim uma bebida tipicamente européia.
Estima-se que, no auge da idade média, a cerveja chegou a ser tão popular que o consumo médio anual per capita chegava a superar 400 litros. Como comparação, o consumo médio anual no Brasil é pouco mais do que 50 litros. É muito cerveja!
Feito o preâmbulo para localizar a efetiva origem da cerveja, estabeleço livremente quatro grandes escolas contemporâneas. Três delas, as clássicas, no velho mundo: a escola belga, a escola alemã e a escola inglesa. Todas elas com origens nas ordens monásticas católicas tendo sido desenvolvidas basicamente em mosteiros.
E uma quarta escola, que revolucionou o mundo da cerveja: a escola da cerveja artesanal americana. Chega de papo e vamos à elas.

Escola Alemã
“Ein Prosit!”

Região

Bavária na Alemanha e Bohemia na República Tcheca

Contexto
A escola alemã , como todas as clássicas, teve sua origem em monastérios e abadias. Que em muitos casos inclusive, seguem produzindo há mais de 1.000 anos até os dias de hoje. A Abadia de Weihenstphan em Freising, por exemplo, é responsável pela mais antiga cervejaria em atividade do mundo. Para consumo próprio produz desde o ano de 768 e, oficialmente como cervejaria, desde o ano de 1040.
Alguns fatos históricos marcaram a escola alemã. 
O primeiro deles no século XI, obra de uma monja beneditina, Santa Hildegard de Bingen,
foi a introdução do lúpulo como conservante e aromatizante nas cervejas. Grande estudiosa de plantas medicinais (além de teóloga, poetisa, compositora, médica, escritora e mestra do Mosteiro de Rupertsberg em Bingen am Rhein), ela pesquisou essa maravilhosa planta e deu-lhe o mais nobre dos fins, a cerveja. Hoje é quase impossível imaginar a cerveja sem lúpulo. Obrigado Santa Hildegard!
Outro momento, talvez o mais marcante da escola, foi a edição da Reinheitsgebot, a lei de pureza alemã. Editada em 1516 pelo Duque Wilhem IV, estabeleceu que a cerveja devesse ser produzida utilizando apenas malte (cevada ou trigo), lúpulo e água.  E por mais incrível que possa parecer, essa lei é seguida rigidamente até hoje.
Um terceiro fato histórico importante foi a criação do estilo Pilsner, na Bohemia. O estilo desenvolvido na cidade de Pilsen por um mestre cervejeiro alemão, ganhou o mundo e deu origem ao estilo american lager, que hoje abrange todas as cervejas de massa do mundo e domina mais de 80% do mercado mundial.
Com toda essa história, a cerveja é parte central da cultura da Bavaria e da Bohemia. É tão presente no dia a dia dessas regiões que o consumo anual médio per capita é superior a 200 litros e, mesmo os refrescos, são obtidos da mistura de sucos de limão com cerveja. Sem esquecer a maior festa do mundo, a Oktoberfest.

Características
A principal característica da escola é a eficiência e o padrão de produção.
Estive na Bavária recentemente e fiquei impressionado como as cervejas são produzidas rigidamente dentro dos padrões exatos para cada estilo, praticamente sem qualquer variação. Uma Helles sempre será uma Helles, exatamente igual, seja em uma cervejaria gigante de Muniche ou em uma artesanal de qualquer vilarejo (todo e qualquer vilarejo possui a sua cervejaria).
Via de regra, as cervejas da escola alemã são leves, variando apenas quanto à uma maior intensidade ora de lúpulos ora de malte. A maioria dos estilos são lagers (fermentação de fundo), exceção às cervejas de trigo que são as únicas ales (fermentação de superfície).

Principais Estilos
Pilsener, Munich Helles, Bock, Schwarzbier e Cervejas de Trigo

Escola Inglesa
“Cerveja na Inglaterra é Ale. Esqueça beer.
Good people drinks good ales!”

Região 
Ilhas Britânicas

Contexto
A escola inglesa é talvez até mais antiga do que a alemã. Mas é também a que mais se transformou entre as três clássicas.
No início da idade média, uma bebida era muito popular nas ilhas britânicas, o hidromel. Obtido da fermentação do mel, podemos considerá-la uma espécie de ancestral das ales inglesas antigas. 
Do hidromel evoluiu-se para a fermentação também do malte de cevada, o que produzia uma bebida forte, doce e alcoólica. Ligados à essa primeira fase da escola inglesa, restaram os estilos Old Ale e Barley Wine.
No século XV, uma mudança radical ocorreu na escola inglesa: a introdução do lúpulo. Inicialmente como conservante, caiu no gosto dos ingleses e mudou completamente o conceito das ales. De doces passaram a ser cada vez mais amargas.
Dessa fase destacam-se as English Pale Ales que são classificadas em amargas, especialmente amargas e extra especialmente amargas.
Uma terceira fase ocorreu a partir do século XVI, especialmente motivada pelo desenvolvimento das colônias inglesas pelo mundo. Com a necessidade de transporte de longa distância, por longos meses em navios, as cervejas foram tornando-se cada vez mais fortes, intensas e alcoólicas. Foi aqui que surgiram os estilos Porter e Stout.
No segunda metade do século XX, a situação tornou a mudar radicalmente. De cervejas fortes os ingleses passaram a ser inundados pelas grandes cervejarias e suas lagers de massa. As velhas ale houses foram fechando, os estilos tradicionais sendo abandonados e o padrão de consumo inglês mudou, não por opção, mas por preço e falta de oferta.
Felizmente, no final da década de 70, consumidores revoltados com o desaparecimento do jeito inglês de fazer cerveja, criaram o CAMRA. 
A sigla significa literalmente Campanha pela Cerveja de Verdade (Campaign for Real Ale) e foi responsável pelo resgate não apenas de estilos, mas da cultura dos pubs e dos pequenos cervejeiros. O CAMRA, é um marco na história da cerveja mundial especialmente por ser um movimento de consumidores e não de produtores. Mudou definitivamente o mercado inglês e desde então a valorização das ale houses tradicionais, os brewpubs, tornou-se uma obsessão para os ingleses

Características
Como vimos a escola inglesa possui fases bem distintas o que reflete em seus estilos. Cervejas doces e alcoólicas que passaram a cervejas leves e amargas que evoluíram a cervejas fortes e amargas. Ales para todos os gostos!
Duas características marcam, via de regra, a escola. São cervejas com baixa carbonatação, quase aguadas, e consequentemente com pequena formação de creme e todas elas são cervejas de fermentação de superfície, ales na acepção técnica do termo.

Principais Estilos
Pale Ale, Porter, Stout, Old Ale, Barleywine, Brown Ale.

Escola Belga
“A Bélgica não é a terra das cervejas, é o paraíso das cervejas.”

Região
Bélgica, Norte da França e Sul da Holanda

Contexto
A escola Belga, apesar de ser a mais intimamente vinculada aos monastérios católicos, é a mais recente das três. Tomou corpo a partir do século XVIII especialmente pelas mãos dos monges que fugiam da Revolução Francesa. A partir de então  foi criando características próprias e tornaram-se famosas as cervejas de abadia. Dentre elas as celebradas Trappistas, verdadeiros mitos no mundo da cerveja.
Apesar de apenas 8 monastérios estarem autorizados a utilizar a marca Trappista (6 deles na Bélgica, um na Holanda e o mais recente deles na França), existem incontáveis abadias em produção, seja para consumo ou para sustento de suas comunidades e projetos.

Características
A característica principal da escola é a diversidade. Muito embora a produção seja apenas de cervejas de alta fermentação (ales), a variedade é muito grande especialmente pela livre utilização de aditivos como sementes, cascas e outros.
Mas o que une e caracteriza a escola é a inconfundível marca das leveduras belgas, que dá um sabor peculiar às cervejas desse escola.
Via de regra, são cervejas maltadas, alcoólicas e sempre complexas.

Principais Estilos
Blonde ale, witbier, dark ale, golden ale, tripel, dubbel e quadruppel

Escola Americana
“Drink Less, Drink Better”

Região
Estados Unidos (especialmente Oregon, Califórnia, Montana, Wyoming, Colorado, Washington, Idaho, Wisconsin, Alaska, Maine, Vermont e Massachussets)

Contexto
A cerveja chegou aos Estados Unidos com a colonização inglesa. Do século XVI ao século XIX sofreu a influência dos diversos grupos de imigrantes, especialmente dos alemães. No início do século XX o mercado americano, já um dos mais importantes do mundo, era rico em estilos e cervejarias e ainda estavam começando a se destacar grandes cervejarias como Anheuser-Bush, Yuengling e Miller.
Entretanto em 1919, entrou em vigor a famigerada lei seca, que duraria até 1933. Essa proibição praticamente extinguiu as pequenas cervejarias, restando apenas as maiores por conseguirem produzir refrescos e outras bebidas não-alcoólicas em suas linhas de produção. Essa situação perdurou até 1933 quando essa lei foi revogada.  Mas o fim da lei seca, apesar de liberar produção e consumo, manteve a proibição para produções caseiras e em pequenas escalas. 
Consequência disso, durante mais de 60 anos apenas as grandes cervejarias puderam produzir. Dominaram então o mercado com cervejas cada vez mais leves, utilizando milho e arroz em larga escala. Foi o auge das Buds, Millers e Coors.
Mas em 1978, foi assinada pelo então Presidente Jimmy Carter, uma lei que derrubava o veto à produção caseira de cervejas. Foi o começo de uma revolução silenciosa. De 8 micro cervejarias nos Estados Unidos em 1980, hoje são mais de 2.000.
Foi uma redescoberta da cerveja como um líquido complexo, pleno de variações de cor, sabor e aroma. Para ganhar mercado, as cervejarias artesanais americanas tomaram o caminho da criatividade, reinventando estilos e misturando tudo o que as escolas tradicionais têm de melhor. E o movimento, graças a Deus, ganhou o mundo.
O conceito “craft beer” já rompeu todas as fronteiras, inclusive as do velho mundo. Escócia, Dinamarca, Suécia, Canadá, Austrália, Argentina e, recentemente o Brasil, redescobriram o prazer de uma bebida que é muito mais do que simples e descartáveis cervejas de massa.
E quem melhor definiu esse conceito foram os canadenses da Unibroue: “Drink less, drink better!” ou “Beba menos, beba melhor”.

Características
A criatividade é a principal característica da escola americana.
Combinam livremente escolas, estilos e ingredientes, utilizando largamente aditivos e novos produtos. Receitas antigas como cervejas de abóbora e receitas absolutamente originais convivem na busca pelo novo, pelo inusitado e pelo extremo.
Não existe uma única característica que represente o movimento mas uma tendência é comum: o lúpulo. Americanos amam lúpulo e cervejas amargas. 

Principais Estilos
Todos os estilos, especialmente ingleses e belgas, reinventados.
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Essa é uma interpretação livre das escolas cervejeiras. O importante não é classificá-las ou rotulá-las, mas conhecê-las e aproveitar o melhor de cada uma.

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